Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “Nana e a representação de duas mulheres distintas”

Muito mais do que um excelente representante da demografia Shoujo, NANA, escrito e ilustrado por Yazawa Ai, é uma obra completa de expressão feminina, tanto por parte da autora incrível, quanto por parte das personagens bem construídas, criadas com o intuito de representarem qualquer mulher pelo menos um pouco.

Apesar de ser lançada em uma revista SHOUJO, NANA retrata a vida adulta e aborda temas maduros do universo feminino como sexo, gravidez e métodos contraceptivos, inclusive como crítica aos hábitos japoneses, que costumam recorrer ao aborto como medida contraceptiva independentemente da motivação. A obra transmite de forma realista as dúvidas com relação ao futuro, a dificuldade de se relacionar com os outros, com nós mesmos e o que realmente significa a realização dos sonhos.

Além desses exemplos, a autora contempla em seu roteiro diversos tipos de relações, personalidades e desenvolvimento de personagem. Outros temas como prostituição e traição também são abordados de forma delicada com muito cuidado. Várias formas de lidar com perdas são apresentadas e é uma obra muito dolorosa por ser tão realista e permitir uma identificação tão grande, mas garantimos que lendo e assistindo Nana, você vai conseguir excelentes amigos para toda a vida.

Mesmo não tendo sido finalizada até hoje devido à doença não divulgada da autora, que afetou suas mãos, a obra marcou todas as suas leitoras e leitores com os temas e personagens bem abordados, uma arte maravilhosa, músicas incríveis e muito carisma.

707, o encontro do destino:  

Em um trem para Tóquio, rumo à esperança da conquista dos sonhos, um encontro do acaso dá início à nossa jornada.

Nessa viagem, encontramos com Komatsu Nana, uma jovem mimada do interior, criada em uma família grande e muito feliz. Seu sonho é se casar e ter uma linda casa e uma linda família, mas por enquanto, o hábito de se apaixonar com facilidade é o que causa todos os conflitos em seu cotidiano, e sua viagem rumo à Tóquio é para estar mais próxima do seu atual namorado, Endo Shouji, com quem até então vinha mantendo uma relação à distância.

Na busca por um assento livre, Nana encontra uma case de guitarra ocupando o lugar ao lado de uma moça muito peculiar, mas muito bonita, que percebe o desconforto com relação a vaga ao seu lado e rapidamente tira a guitarra, liberando o espaço.

Seu nome é Osaki Nana, abandonada pela mãe e criada pela avó exigente em uma cidade fria, Nana é cantora e tinha uma banda, “Black Stones” (ou “Blast” pros íntimos), que se desfez quando seu namorado Ren os abandonou para seguir carreira como músico em Tóquio. Porém, diferente da Nana Komatsu, o objetivo dessa Nana aqui não é estar com o namorado, mas sim, se vingar do abandono, fazendo mais sucesso como cantora do que ele como guitarrista da banda “TRAPNEST”.

O acaso coloca as duas garotas de mesmo nome lado a lado em uma viagem com o mesmo destino, mas não para por aí. Ambas se reencontram buscando por um lugar para morar, e acabam dividindo o apartamento 707, do sétimo andar de um prédio antigo, sem elevador, mas muito estiloso. “Nana” em japonês é o palavra para o número 7, por isso tantas brincadeiras com os nomes das meninas.


“Ei Nana, você se lembra de quando nos conhecemos…?”

Inclusive, para que nem os personagens nem os leitores se percam, a Nana Osaki apelida a Komatsu de “Hachi” em referência ao cão “Hachiko” que mesmo tendo perdido seu dono, o esperou até a própria morte e foi homenageado com uma estátua em Shibuya. Segundo a Osaki, a Komatsu lembra um cachorro, de tão fiél e animada que é, e como “Hachi” também é a palavra para o número oito, que vem depois do sete (“nana”) a brincadeira pegou.

Assim como a Komatsu está para um cãozinho, a Nana Osaki está para uma gatinha muito arisca, e até essas escolhas e brincadeiras tem tudo a ver com as histórias das personagens e facilita a identificação do público.

É dessa amizade destinada que a história se desenvolve e apesar do foco ser nas vidas das Nanas, todos os outros personagens são muito bem elaborados, o roteiro tem detalhes muito bem pensados e o conjunto da obra é inesquecível. Preparem os corações e os lenços.

Uma obra sobre relações humanas [SPOILERS]

A Osaki Nana claramente enfrenta o dilema do porco espinho durante a série. O conceito foi proposto por Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), que através de uma metáfora, tenta ilustrar o problema da convivência humana. Para enfrentarem climas frios, os porcos espinhos precisam estar próximos, mas seus espinhos os machucam, então precisam fazer escolhas e aprender qual a distância ideal para que não se machuquem e possam continuar juntos se ajudando.

Enquanto a Hachi facilmente cria laços com outras pessoas, a Nana tem dificuldade de manter até mesmo as relações antigas de maior confiança, o que é um reflexo de todo o abandono sofrido durante a vida, pela sua mãe, pela avó e posteriormente pela única pessoa que ela decidiu chamar de família, o namorado Ren.

Até o presente momento, como a obra não foi finalizada, a Nana ainda não superou o dilema do porco espinho e preferiu se afastar e passar frio sozinha (mas estaremos todos de braços abertos para recebe-la quando estiver pronta para retornar).

Inclusive, a imagem da Nana na neve é sempre forte na obra, o que reforça ainda mais essa simbologia como linguagem para representar seu dilema, suas dificuldades de se relacionar e sua solidão.

Ambas as personagens sempre representam dualidades, mas sempre se complementam, como a analogia das personalidades do tipo “gato” para Nana e do tipo “cão” para Hachi. Então se a Nana está para o inverno, a Hachi seria a primavera.

E como a primavera, a Hachi é a fertilidade. Uma mulher que ao mesmo tempo é tradicional e sonha em se casar e ter uma linda casa, um marido e família para cuidar, ela também é sexualmente livre e escolhe seus parceiros sem ser diminuída por sua liberdade.

A Hachi não se prende aos homens, e sim, segue seu coração e seus desejos, aproveitando inclusive a oportunidade de estar com seu ídolo, Ichinose Takumi, baixista da banda TRAPNEST.

Hachi também se depara com vários dilemas, porque engravida mas não sabe quem é o pai da criança. Ela estava tendo uma boa relação com o Nobu, guitarrista da banda “BLAST”, da Nana, e realmente apaixonada por ele, mas se permite uma noite de prazer com o ídolo Takumi.

No desespero da situação, ela recorre a ambos, mas decide pelo seu próprio bem e pelo bem da criança que ela corajosamente faz questão de dar a luz, que o Takumi era a melhor opção, uma vez que ao contrário do Nobu, ele se dispõe a fazer o possível para cuidar dela e da nova família, sem sequer questionar se a criança de fato é dele.

É notável que a decisão da Hachi é dolorosa pra todos, mas é a mais racional, já que além da maturidade do Takumi, ele também já é um homem realizado, enquanto o Nobu está trilhando o próprio caminho e tem muito pela frente, o que seria perdido se a responsabilidade de uma criança surgisse.

Aos poucos, nós percebemos um amadurecimento grande da garotinha Hachi mimada do começo da série, e também percebemos como a maturidade da Nana do início era só uma fachada pra todas as suas inseguranças que aos poucos vão aparecendo em suas relações. Juntas elas representam diversos questionamentos que nós como mulheres enfrentamos, e é possível se identificar com uma, outra ou ambas ao mesmo tempo.

SEM FINAL? // VAI VOLTAR?


A autora de Nana declarou que vai voltar, não definiu datas mas já está dando indícios de seu retorno.

O mangá entrou em hiatos em 2009 e a autora afirmou em 2010 que não saberia quando voltaria, mas em 2013 lançou um capítulo do “cantinho da Junko” e em 2015 a revista Cookie lançou um calendário com novas ilustrações de NANA.

Em 2016 a autora desenhou uma mini série dos mangás Tenshi Nanka e Gokijyo Monogatari e em 2017 fez ilustrações exclusivas para a música “iiwake” da cantora JUJU.

(https://www.instagram.com/p/BbHaDaPH3Y3/?hl=en)

Outra notícia que recebemos do nosso ouvinte Maviael Nascimento é que a autora desenhou recentemente a capa do livro que conta a história da revista Ribon, da Shueisha, na qual ela publicou suas histórias por 15 anos!


Curiosidades:

Recebemos um e-mail cheio de curiosidades do ouvinte Maviael Nascimento e gostaríamos de compartilhar com todos! Muito Obrigada Maviael!

  • Durante seus anos de publicação, o mangá de Nana quase sempre esteve no top 3 do ranking da Oricon junto com One Piece e Berserk, ou seja, um shoujo que deveria ser um josei, um shounen e um seinen.
  • Só no Japão o mangá vendeu mais de 43.600.000 volumes. O que dá uma média de mais de 2.000.000 milhões de cópias por volume, isso consolida Nana como o shoujo mais vendido de todos os tempos e um dos 10 mangás com mais vendas por volume até hoje.
  • O volume 19 e o volume 20 foram respectivamente o terceiro e quinto mangá mais vendidos de 2008.
  • O personagem favorito da Yazawa-sensei é o Takumi. Ela declarou ter uma queda por esse tipo de homem.
  • Ao longo da obra, a Hachi se apaixonou por 10 homens diferentes.
  • Além de mangaká, a Yazawa-sensei também é compositora. Foi ela quem compôs a letra de Glamorous Sky(o Hyde e a Mika Nakashima só compuseram a parte instrumental). Além de Glamorous Sky, ela compôs 2 músicas para o CD do anime de Gokinjo Monogatari intitulado Afternoon Break.
  • Assim como em outras obras da Yazawa-sensei, existe um segredo nas capas de cada volume de Nana. Cada capa é uma sequência da capa anterior. Se você puser todos os volumes lado a lado, você verá uma pequena história sobre um dia na vida das Nanas.
  • A Nana chamou a Hachi pelo verdadeiro nome cinco vezes, já a Hachi nunca usou nenhum honorífico pra falar com a Nana.
  • Em um dos capítulos que mostra o passado da Hachi, a Junko em uma piada chama a Nana(Komatsu) de Hachi, ou seja, ela foi a primeira a usar esse apelido.
  • No anime Golden Time tem uma personagem que é uma clara referência a Nana Ozaki, essa personagem também se chama Nana.
  • O anime foi dublado em 7 idiomas diferentes, japonês, inglês, italiano, francês, espanhol, húngaro e coreano. E o mangá foi traduzido em 11 idiomas.
  • No total, a Anna Tsuchiya e a Olivia Lufkin compuseram 11 músicas especialmente para o anime. A Anna compôs 5; Rose, Lucy, Zero, Stand By Me e a minha favorita Kuroi Namida. Já a Olivia compôs 6; A Little Pain, Starless Night, Wish, Winter Sleep, Shadow of Love e a minha favorita dela, Recorded Butterflies.
  • A Anna Tsuchiya lançou um disco intitulado Inspi’ Nana. O disco foi o sexto mais vendido do ano no Japão, vendendo mais de 30.000 cópias só na primeira semana.
  • O Takumi foi inspirado no cantor japonês Atsushi Sakurai, vocalista da banda Buck-Tick que cantam a primeira opening do maravilhoso anime Shiki.
  • Nana fez tanto sucesso na frança que foi lançada uma biografia da Ai Yazawa, o título do livro é “Ai Yazawa il romanticismo di Nana e le altre”.