Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “Perfect Blue”

Baseado no romance de Yoshikazu Takeuchi e dirigido pelo renomado diretor Satoshi KonPerfect Blue (1997) é um suspense psicológico de tirar o fôlego, inspirando inclusive filmes famosos de Hollywood como “Réquiem para um sonho” e “Cisne Negro”.

Sobre:

A história apresenta a protagonista Mima Kirigoe, uma idol que fazia parte de um trio musical feminino chamado “CHAM” e que decide sair do mundo da música para se dedicar à carreira de atriz, deixando diversos fãs e colegas frustrados com sua decisão.

O tema do filme por si só já é muito interessante por abordar algo que nunca foi tão atual e pertinente como fenômeno sócio-cultural: Nossa sociedade que vem se tornando ainda mais iconoclasta, idolatrando personalidades sejam atores, atletas ou cantores.

O mundo do K-pop e J-pop são exemplos desse fenômeno que,  com cada vez mais debuts de novos grupos, explora o lado puro, virgem e infantil das mulheres assim como o lado viril e sensual dos homens.

Fanatismo:

Perfect Blue aborda o lado mais profundo e psicológico tanto do fanatismo praticado pelos fãs que não se importam com a saúde de Mima, quanto da confusão ideológica que muitos famosos sofrem por viverem dentro de personagens agindo conforme a expectativa do público ao invés de sua própria vontade.

Avançando no enredo, Mima vai recebendo de seus “fãs” diversas ameaças, conforme o seu ex-grupo cresce cada vez mais. Um dos seus “admiradores” é um stalker obcecado pela ex-idol, mostrando claramente a fantasia imaginária que vivia e o perigo que um amor cego e doentio gera naqueles que vivem para seus ídolos.

O filme te apresenta o psicológico da protagonista e como ele vai sendo distorcido e corrompido que,  através de sua busca incessante em atingir a perfeição, vai deixando-a cada vez mais frágil, insegura e instável.

O mundo da fama é conhecido pelo seu lado podre principalmente ligado às mulheres do meio com inúmeros casos de exploração e assédio, cenário mostrado no filme principalmente na cena terrível de estupro, uma das várias situações grotescas que Mima se sujeita para ser aceita pelos produtores que não acreditavam em sua capacidade em representar um papel sensual.

Crise de Identidade:

Uma série de assassinatos que devia fazer parte do enredo do drama cuja protagonista participa, acontece na vida real com a equipe responsável, deixando quem assiste o filme sem saber quem é o culpado. Além disso, um blog na internet aparece como um diário de Mima que sabe todos os seus passos mas que não é reconhecido pela mesma como sendo seu. Afinal quem estaria por trás de tudo?

Nesse momento a ex-idol se vê cada vez mais mergulhada em sua própria loucura, em cenas tão confusas que iludem o espectador, nos fazendo duvidar igualmente sobre que acontecimentos fazem parte da realidade ou da fantasia de Mima, questionando sua própria identidade.

O final eletrizante e surpreendente se constrói com a riqueza de detalhes da narrativa, onde o autor ao mesmo tempo em ilude o público, lhe dá pequenas dicas sobre quem é afinal o responsável por toda a agonia do filme.

A parte técnica da animação feita pelo estúdio Madhouse é executada de forma brilhante, retratando o cenário de uma Tóquio opressora e utilizando o clássico simbolismo da cor vermelha (inspirada no trabalho de Hitchcock principalmente em “Um corpo que cai” ) para anunciar os momentos de tensão do filme. Com um estilo gráfico próprio que pode ser estranhado pelos navegantes de primeira viagem, Perfect Blue foi feito para deixar o expectador desconfortável, confuso e culpado.

Considerações Finais:

Afinal, quem é que consome o entretenimento? Nós. Assim como a mídia e indústria somos culpados pela exploração, cobrança e julgamento daqueles que estão sendo expostos. E o pior? Com cada vez  mais barreiras derrubadas pela tecnologia e internet, esse cenário está ainda mais longe de mudar.