Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “A relação das mulheres com os Otome Games”

Não somos donzelas indefesas. Em nenhum momento esse será um texto de um herói salvando a princesa, e sim sobre nós, mulheres, no papel principal, e um romance narrado por nós. E para tal, cá estão os Otome Games/Otoge (pronuncia-se otoguê), jogos direcionados para o público feminino, onde um dos objetivos principais é desenvolver um relacionamento amoroso entre a protagonista e um dos vários personagens disponíveis.

O gênero é muito famoso no Japão e é baseado, majoritariamente, em visual novels e datesims, jogos de simulação. Não são hentais. (Podiam? Podiam, mas aí já é outra história).

O Harém inverso

Como já discutimos em alguns de nossos casts, harém é um gênero onde o ou a protagonista possui um certo “mel” que atrai outros personagens do sexo oposto para perto dele. Chamamos de harém inverso quando temos uma mulher no papel principal, como o centro das atenções e diversos pretendentes tentando conquistá-la.

Essa mulher nos otoges é referida muitas vezes como mcmain character, ou heroine. Costuma ser uma protagonista mulher que se relaciona com um dos homens candidatos, mas em alguns jogos, como Blossoms Bloom Brighest, há rotas com pretendentes femininas (shoujo-ai ou yuri).

Blossom Bloom Brightest | Disponível para Windows e MacOS (Foto: Reprodução/ Reine Works)

Mas afinal, qual a mágica por trás dos otome games? Para muitas japonesas, é a simples mágica de um relacionamento.

Os japoneses vêm substituindo relacionamentos reais por virtuais. No documentário “Rede Sombria” do Netflix, o episódio 1 – crush, é relatado que muitos assumem relacionamentos virtuais pois não sabem lidar com a rejeição.

Yusuke começou a namorar Rinko, personagem do jogo Love Plus, após sua namorada real terminar o relacionamento com ele. (Foto: Reprodução/ Netflix)

Para as mulheres ocidentais, a mágica dos otome games reside em serem elas mesmas a protagonista. Em muitos casos, a heroine, não tem nome, rosto, voz, aparência…a idéia é você suprir esses elementos com suas características pessoais. Tanto que em muitas adaptações para animes as personagens acabam ficando “sem-sal”, pois não há nenhuma característica interessante a ser explorada. As diversas respostas podem levá-la para diferentes enredos e finais alternativos.

A febre de Mystic Messenger

Mystic Messenger | O jogo que o seu crush te liga <3 (Foto: Reprodução/ Cheritz)

O jogo para celular Mystic Messenger é um otome game de origem sul coreana criada pela empresa Cheritz que fez muito sucesso no ocidente pois, além do character design e vozes muito atraentes dos personagens, a interação se dá além do jogo, estendendo-se para o celular em si. Os personagens te ligam e mandam mensagens em horários inusitados do dia. (Estou escrevendo isso e gritando por dentro).

O jogo conta a história de você, ou seja, a protagonista, instalando um aplicativo misterioso que a leva até um apartamento fechado de uma tal de Rika. Lá, ela conhece 5 novas pessoas, que serão seus “interesses amorosos” disponíveis, cada um com sua própria rota. O objetivo do jogo também é descobrir a verdade por trás de uma organização de caridade entitulada RFA, Rika’s Fundraising Association.

O jogo possui diversos finais e até bad ending (quando o pretendente termina com você). Dependendo das suas respostas o personagem vai gostar de você com intensidades diferentes. Há uma rota com uma personagem feminina disponível, mas nesse caso não chega a um relacionamento amoroso.

O mercado otoge no ocidente

Apesar da fama no Japão, os otoges são pouco acessíveis no ocidente. Mas se temos que agradecer alguém pelo número de jogos do gênero crescer para aparelhos celulares por essas bandas, esse alguém é a Voltage.inc.

A empresa foi fundada em 1999 e é uma desenvolvedora japonesa que publica aplicativos com histórias interativas como visual novels e otome games para iOS e Android. São mais de 30 títulos gratuitos com algumas opções de pagamento se você for um jogador mais ávido do gênero.

Outra desenvolvedora mais recente e que tem atraído atenção das consumidoras de otoge é a Cybird.co. Seguindo a mesma linha da Voltage com o sistema de freemium (quando o aplicativo é de graça com algumas funções pagas), ela é responsável pela série Ikemen.

Sengoku Ikemen | Um grande sucesso da empresa (Foto: Reprodução/ Cybird.co)

Ikemen Sengoku é um dos títulos da série mais querido. O jogo é como se você viajasse no tempo e fosse parar no passado da era feudal. Além da história muito bem desenvolvida, cheia de mistérios e um assassinato para impedir, os personagens são todos baseados em samurais reais, como Nobunaga Oda, Masamune Date, etc! A mágica desse jogo está nos seiyuus envolvidos, que fazem um trabalho ESPLÊNDIDO. O jogo também possui versão para a plataforma PSVITA, portátil da Sony.

Adaptações:

Muitos otoges viram dramas CDs, que correspondem as radionovelas, onde a interpretação é realizada com o uso do som sem nenhum elemento visual que acompanhe a história; e animes, como é o caso de: Starry Sky, Amnesia, Uta Prince-sama, Dance with devils, Brothers Conflict, entre outros.

Amnesia | Teve adaptação para anime em 2014 (Foto: Reprodução/ Idea Factory)

Porque não recomendamos Diabolik Lovers:

Diabolik Lovers ficou muito famoso no meio dos otoges na época em que teve adaptação para anime, com vários cosplayers interpretando os personagens e etc, mas iremos citar como um desserviço e vamos explicar o porquê.

Diabolik Lovers | Foi adaptado para anime e possui duas temporadas. (Foto: Reprodução/ Rejet)

A heroína é constantemente chamada de vadia, puxada a força e abusada tanto físico como mentalmente. Não há consentimento da protagonista e ela sempre passa por situações que é forçada a ceder. O jogo fez muito sucesso pelos personagens terem visuais incríveis, mas nada justifica o abuso. Nenhum relacionamento desenvolvido no jogo é saudável. Não é correto romantizar o abuso.

Diabolik Lovers | Dude, srsly???  (Foto: Reprodução/ Rejet)

O que podemos tirar de aprendizado dos otome games?

A cultura hierárquica e patriarcal no Japão ditava que homens eram os provedores do lar enquanto mulheres cuidam do lar e dos filhos. Aos poucos, o povo e o próprio governo foi modificando esse pensamento. As mulheres japonesas, cada vez mais independentes pessoal e profissionalmente, descobriram outros valores e objetivos além do ambiente doméstico. Elas estão indo atrás de seus sonhos.

Assim como os joseis, os otome games existem para provar que nós mulheres, também temos desejos, sentimos prazer e somos parte de um nicho mercadológico expressivo e importante, seja como produtoras ou consumidoras.

Considerações Finais:

Necessitamos interação, isso é um fato. A solidão pode ser sufocante, e muitos jogos nos ajudam a acalmar e mesmo reconfortar os sintomas da ansiedade e depressão. Porém, a vida real precisa ser encarada de frente uma hora ou outra. As expectativas nunca vão ser atendidas 100%.

Ayaka, fã do otoge Midnight Cinderella em evento sobre o jogo. (Foto: Reprodução/ Cybird)

Não é novidade para ninguém que o Japão tem passado por diversos problemas de natalidade. Em 2017, registrou a sua pior taxa de natalidade desde 1899, segundo a matéria do mundo nipo.

” (…) o Japão tem a segunda taxa de natalidade mais baixa no mundo, ficando atrás apenas da Coreia do Sul, que registra 1,4 filho por mulher.”

O problema de qualquer vício é quando ele se torna uma obsessão que prejudica a vida real. Pessoas perfeitas não existem. Espelhar a ficção para a realidade é perigoso por aumentar demais as expectativas sobre os outros. O importante é dosar o divertimento e lazer com experiências e vivências palpáveis.

Que cada vez mais mulheres se descubram e floresçam sexualmente, podendo ter acesso a entretenimento de qualidade que as representem de forma respeitosa e prazerosa além de que hajam mais oportunidades no mercado para as produtoras de conteúdos para mulheres sejam artistas, dubladoras, desenvolvedoras de games, ou roteiristas.

E você? Qual seu otoge favorito? Sentiu falta de algum ser citado? Conte para nós nos comentários!