Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts. Escute o Podcast “O que tem o Josei?”

Dentre as categorias demográficas para publicações de mangás no Japão temos: shounen, shoujo, seinen e josei. Mas, afinal, o que é o Josei e por que não se fala muito desse nicho mercadológico?

Josei significa “mulher”, “feminino” ou “feminilidade”. É o nome dado à segmentação demográfica de mangás e animes comercializados para mulheres entre 18 e 45 anos de idade. É um dos quatro principais segmentos de publicação de mangás. Esse tipo de classificação é definida pelo editor, que encaminha a obra a ser publicada em determinada revista. (Seja por oportunidade, ou pelos “contatinhos”, né?)

Dentre as revistas Josei mais famosas estão: Monthly Comic Zero Sum, Flower, Judy, Petit Comic, You, Kiss, CocoHana, Cheese, entre outras.
(Aqui o link com a lista de todas elas e todos os mangás publicados.)

Origem do Josei:

A evolução dos shoujos para Joseis com o passar das décadas de 60 até os dias atuais. (Foto: Reprodução/ Montagem de Kudan Shobo)

Nascido por volta dos anos 70/80, teve raízes nos mangás e animes shoujos das décadas de 50 e 60, sendo assim uma evolução mais madura destes. Josei é um termo moderno e estes primeiros mangás feitos por mulheres e para mulheres adultas se chamavam “Lady Comics”.

O termo “Lady Comic” foi manchado com uma reputação de censura, sendo considerado pela sociedade japonesa como “pornografia com pouco mérito artístico” e, por isso, o termo “josei” foi criado, na tentativa de distanciar os quadrinhos das mulheres dessa reputação antiga e preconceituosa.

A necessidade de criar um gênero como Josei se deu pela onda do movimento feminista daquela época, que buscava o direito das mulheres de ter acesso aos procedimentos de controle de natalidade e mais liberdade de escolha.

As escritoras japonesas usaram esses mangás como um meio de desconstruir as perspectivas tradicionais sobre sexo e procriação, e o ideal da dama, da esposa perfeita – uma mulher pura que serviria ao lar e ao marido.

Graças a iniciativa das primeiras mangakás em expor histórias mais maduras e próximas da realidade é que podemos ter atualmente mangás Josei como Hapi Mari. (Foto: Reprodução/Shogakukan)

Em uma sociedade na qual a maioria dos mangás e animes que cobrem o tópico da sexualidade foram concebidos para o prazer exclusivo dos homens, as escritoras japonesas estavam cansadas da dualidade na representação da mulher: nos hentais eram exploradas como servas dos parceiros e nos shoujos, mostradas como anjos inocentes e perfeitos que deviam expressar amor incondicional e fragilidade.

Foi quando o Josei, um material mais maduro destinado a explorar o erotismo das mulheres e satisfazer as fantasias sexuais delas, foi criado. Os primeiros Lady Comics eram sexualmente livres, e quanto mais anos se passaram, mais eles se tornavam sexualmente explícitos, e às vezes até violentos.

O que define uma obra se Josei?

Paradise kiss é uma das obras Josei mais aclamadas sendo o primeiro da demografia a ser publicado no Brasil. (Foto: Reprodução/Madhouse )

  • Retrata relacionamentos maduros que envolvam sexualidade.
  • Temas mais pesados, como violência, depressão, traição e abuso também aparecem na trama.
  • Situações reais que fazem parte do universo da mulher, como maternidade, descoberta sexual e até mesmo aborto.
  • Enredo complexo, críticas sociais e liberdade de expressão feminina.
  • Personagens bem estruturados, cujas vidas e ações estão relacionadas tanto ao relacionamento que compartilham, quanto à sua missão e ideais.

O “Boys Love” presente nos Josei:

007 Ghost é um exemplo de Boys Love Josei cuja trama é muito mais profunda que uma obra puramente Yaoi. (Foto: Reprodução/Studio Deen )

As séries josei que se tornam anime são muitas vezes notadas por sua tendência de apresentar temas homoeróticos, os famosos Yaoi. Quando há uma adaptação de mangás josei para anime, muita gente se confunde e os classifica como shonen ou shoujo.

Os relacionamentos homossexuais nos Josei são totalmente desenvolvidos e crescem juntos com os personagens, enquanto suas personalidades evoluem, e são frequentemente parte de um enredo mais complexo no qual os personagens têm que lidar com pessoas e eventos, ao contrário das obras Yaoi, nas quais os personagens não se desenvolvem e o sexo é o foco do enredo. Um Josei exemplo disso é 007 Ghost.

As Webcomics – Um novo refúgio para as amantes de Josei:

Da direita para esquerda: Sadistic Beauty, Sign e Scandalous são webcomics do site Lezhin. (Foto: Reprodução/Lezhin)

As Webcomics são quadrinhos independentes, dos mais diversos gêneros, criados mundialmente e publicados em plataformas específicas. A sua popularidade cresceu muito, sendo a China e Coréia os maiores produtores desses conteúdos.

Por não seguirem os padrões mercadológicos das editoras, as webcomics possuem uma liberdade artística muito maior. Os enredos são mais inovadores e fazem muito sucesso com o público feminino maduro, por possuírem histórias envolventes cujo conteúdo erótico se alia a histórias boas, feitas do público para o público.

As webcomics têm crescido tanto, que muitos dramas coreanos atuais vêm baseando seus roteiros nesses quadrinhos diferenciados e queridos pelas mulheres. Alguns aplicativos para consumir estes quadrinhos no celular são: Webtoon, Lezhin e Web Comics.

Afinal, por que mulheres preferem os Josei?

Kimi ga Suki Dakara é um mangá Josei pouco conhecido cuja trama mostra um envolvimento amoso muito mais maduro do que os Shoujos água com açúcar. (Foto: Reprodução/Alpha Polis)

Podemos dizer que com o passar dos anos, conforme vamos amadurecendo, surge a necessidade de consumir obras que sejam mais compatíveis com o momento em que estamos na vida. Problemas no trabalho, casamento, maternidade e sexo são temas que fazem parte da vida da mulher moderna, e o clássico romance estudantil puro e sem maturidade acaba perdendo a graça.

Obras Josei famosas:

Nodame Cantabile foi um dos Josei mais premiados até hoje com uma história de amor entre um casal de músicos. (Foto: Reprodução/Kodansha)

007 GhostNodame Cantabile (musical), Paradise KissChihayafuru (anime de jogo de cartas karuta), Sakamichi no Apollon (musical sobre jazz), Honey e CloverMarsLovelessGold & Silver (Dois mangás adaptados por Fujita Kazuko, baseados em obras de autoras ocidentais), e Natsuyuki Rendezvous (triângulo amoroso com a esposa, o fantasma do parceiro falecido e o novo pretendente dela).

PS: Nana não é considerado Josei apenas por terem preferido publicar na revista Shoujo Cookie para ganhar mais visibilidade.

Considerações Finais:

Não há nada melhor do que uma boa história baseada em relacionamentos e emoções realistas, com um enredo bem estruturado, complexo e que traz personagens maduros, capaz de manter o público fascinado.

As obras de Josei desviam do puro e perfeito universo da puberdade e da adolescência, para entrar na esfera da vida adulta, tanto em nível erótico como idealista, independentemente dos gêneros das personagens.

Devemos muito às mulheres japonesas que iniciaram a árdua tarefa de expressar a sexualidade e empoderamento feminino. Torcemos para que essa demografia cresça sempre e que inspire e influencie cada vez mais mulheres a serem quem elas desejam ser, e não o que se espera delas.