Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “Hiromu Arakawa”

Mulheres e o mercado:

Obter reconhecimento profissional não é fácil. Alcançar o sucesso, menos ainda. A dificuldade aumenta bastante se você for mulher.

(aviso importante: não faremos aqui um recorte social de cor da pele e nem de orientação sexual, pois o texto se desvirtuaria por completo, mas é importante que todos tenham ciência de que quanto mais específica é a minoria, infelizmente a dificuldade do jogo da vida fica muito mais hard)

Historicamente as mulheres sempre foram inferiorizadas e apenas muito recentemente, após séculos de luta contínua e incessante, os direitos e oportunidades delas estão começando a se igualar aos que os homens sempre tiveram. Entretanto, ainda hoje ser mulher pode ser um impeditivo para trabalhar ou até mesmo estudar, dependendo da área de interesse ou da cultura em que se está inserida.

Para contornar estes empecilhos, as criativas mentes femininas foram atrás de alternativas. Algumas, como Hua Mulan (até hoje é discutido se ela foi uma personagem histórica real ou uma personagem fictícia) e Joana d’Arc (☆1412 – 🕆1431), cortaram seus cabelos e assumiram uma identidade masculina para poderem perseguir seus objetivos.

Menção honrosa para Yentl, personagem do filme de mesmo nome, que se veste de menino para poder estudar as leis judaicas do Talmude. (Foto: Reprodução/ MGM/UA)

Nas artes e ciências, é extremamente comum mulheres terem seus trabalhos publicados por homens – como por exemplo a pintora Margaret Keane, cujas obras eram assinadas pelo ex-marido (o filme Big Eyes conta sua história de vida) -, abreviarem seus nomes para deixar no ar a dúvida sobre seu gênero – tática usada pela autora de Harry Potter, JK Rowling – ou adotarem pseudônimos masculinos, como fez a nossa estrela da vez, a mangaká Hiromu Arakawa.

“Você que fez, mas o crédito é meu!” (Foto: Reprodução/ The Weinstein Company)

Origens:

Nascida em 8 de maio de 1973 (ano do boi), em uma subprefeitura de Hokkaido chamada Tokachi, a taurina Hiromi Arakawa é a quarta entre os cinco filhos de uma tradicional família fazendeira produtora de leite.

Quando criança, tinha muitos sonhos: criar gado, cuidar de animais no zoológico… mas também sonhava em ser mangaká, e este foi o sonho que continuou presente enquanto ela crescia. Arakawa-san conta que desde que segurou uma caneta pela primeira vez, ela desenhou.

Frequentou um colégio voltado para formação em agricultura, e ainda que o ambiente no qual ela estava inserida não abrisse oportunidades na carreira de mangás, persistiu no sonho e continuou desenhando. Então explicou sua paixão para seus pais e fez um acordo com eles: trabalharia por sete anos na fazenda, para depois perseguir o que ela realmente almejava fazer.

A autora falando sobre suas origens, no mangá Nobre Camponês (Foto: Reprodução/ Hiromu Arakawa)

Nesse meio tempo, frequentou aulas de pintura a óleo uma vez por mês, aperfeiçoando seu talento aos poucos. Seu primeiro trabalho como mangaká foi a criação de um doujinshi (uma espécie de fanzine) sobre os Três Reinos chineses, que já revelou sua paixão por história – especialmente pela história da China, que viria a aparecer novamente em outras obras suas.

Em seguida, começou a desenhar yonkomas (tirinhas com quatro painéis) para uma revista sobre corridas de cavalos, e em paralelo criou um pequeno clube de mangá com seus amigos. Assim ela levou a vida, entre desenhos e o trabalho na fazenda, até que os sete anos combinados com seus pais passaram e em 1999, aos 26 anos, ela se mudou para Tóquio em busca de um emprego como mangaká.

Nos primeiros meses morando na cidade ela formou um grupo de doujin com uns amigos, o Dennou Sanzoku Bukand, com o qual lançou o mangá Shishi Juushin Enbu, que mais tarde viria a ser a fundação de sua obra intitulada Hero Tales. Seu primeiro trabalho remunerado na área foi na revista sobre videogames Gamest, onde ela desenhava yonkomas bem humorados sobre os lançamentos de games. Já naquela época, porém, ocultava sua identidade feminina com o pseudônimo Edmund Arakawa.

Capa da edição 263 da revista Gamest, de maio de 1999. (Foto: Reprodução/ Shinseisha)

No mesmo ano, publicou a obra Stray Dog pela editora Enix (que viria a se chamar Square Enix) na revista Monthly Shonen Gangan, e ganhou o 9º Prêmio Enix Século 21, também em 1999. Isto lhe rendeu visibilidade e a editora logo tratou de fechar um contrato com a Arakawa-san para que ela publicasse seus mangás exclusivamente com eles.

Como seus trabalhos são majoritariamente shounen e isso é “coisa de menino”, ela optou por se esconder atrás do pseudônimo Hiromu Arakawa, para que os leitores do sexo masculino não descreditassem seu trabalho por ela ser mulher.

Obras:

  • Stray Dog (1999)
  • Shanghai Yōmakikai (上海妖魔鬼怪 lit. “Demônios Fantasmas de Xangai”) (2000)
  • Fullmetal Alchemist (鋼の錬金術師, Hagane no Renkinjutsushi, lit. “Alquimista de Aço”) (2001–2010)
  • Raiden 18 (2005)
  • Sōten no Kōmori (蒼天の蝙蝠? lit. “Um Morcego no Céu Azul”) (2006)
  • Hero Tales (獣神演武, Jūshin Enbu) (2006–2010)
  • Hyakushō Kizoku (百姓貴族? lit. “Nobre Camponês”) (2008)
  • Silver Spoon (銀の匙, Gin no Saji) (2011-)
  • Arslan Senki (アルスラーン戦記) (ilustradora) (2015-)
(fonte: wikipedia)

FMA – O queridinho!

O primeiro volume de Fullmetal Alchemist foi lançado em julho de 2001. (Foto: Reprodução/ SquareEnix)

É impossível falar sobre essa mangaká espetacular sem destacar o carro-chefe, seu maior sucesso, a obra favorita de todos: Fullmetal Alchemist.

Ela chegou a entrevistar veteranos de guerra, para poder narrar melhor as cenas de guerra. (Foto: Reprodução/ SquareEnix)

Por nove anos (2001 a 2010), Arakawa-san se dedicou a escrever FMA, se debruçando sobre extensas pesquisas em história, química, alquimia, filosofia e até mesmo assuntos mais específicos como veículos militares e armas da Segunda Guerra Mundial – entre outros tópicos – para embasar suas artes, a origem de seus personagens e os arcos de narrativa.

O resultado foi um shounen enxuto e completo em seus 27 volumes (108 capítulos), com uma história surpreendente que nos envolve do início ao fim, lutas fenomenais, personagens fortes e profundos, questões existenciais que nos fazem refletir por horas, e que ainda toca em temas importantes como política, os diversos tipos e níveis de relações humanas, os vários sentimentos de culpa que carregamos, preconceitos, histórias de amadurecimento e arcos de redenção.

Um exemplo de cena de luta ágil e cheia de ação e um toquinho de humor. (Foto: Reprodução/ SquareEnix)

Tudo isso com uma narrativa que flui suavemente entre ação, melancolia, suspense, romance e até momentos sutis de leveza. A obra também conta com muito bom humor pontuando a história inteira com bastante precisão.

Um momento lindo e de profundidade sutil. (Foto: Reprodução/ SquareEnix)

Arakawa-san segue exatamente aquilo que ela diz ser essencial para ser uma boa mangaká: encontrou o equilíbrio perfeito entre atender e trair as expectativas dos leitores. Simplesmente impecável. <3

Prêmios:

Que o trabalho da Arakawa-san é maravilhoso, a gente sabe, mas ele também é reconhecido com premiações importantes:

  • 1999: 9º Prêmio Enix Século 21 por Stray Dog
  • 2003: 49º Prêmio Shogakukan de Mangá, na categoria shōnen por Fullmetal Alchemist
  • 2011: 15º Prêmio Cultural Osamu Tezuka, categoria “Artista Revelação”.
  • 2011: 42º Prêmio Seiun, categoria “Melhor Mangá de Ficção Científica”
  • 2012: 5º Prêmio Manga Taishō por Silver Spoon
    (fonte: wikipedia)

Uma vida reservada:

Em um mundo tão intensamente online, em que conseguimos descobrir tudo sobre alguém em uma simples “stalkeada”, Arakawa-san mantém sua privacidade com maestria, a ponto de quase ninguém saber direito qual é sua aparência ou o gênero dos seus três filhos, por exemplo.

Premiação Shogakugan em 2004: a única foto dela na internet toda (ela é a do meio). A resolução é essa mesma, não tem com qualidade melhor. (Foto: Reprodução/ Wikipedia)

Ela não tem o costume de comparecer a eventos públicos, então por diversas vezes a seiyuu (dubladora) do Edward Elrich, Romi Park, aceitou prêmios em nome da Hiromu e por esse motivo é extremamente comum confundirem a imagem da Romi com a da nossa querida mangaká.

Será que ela inspirou Kill la Kill? õ.Ô (Foto: Reprodução/ SquareEnix)

Dando uma busca pela imagem dela, o que vai aparecer – além da Romi Park – é seu avatar da vaquinha de óculos, que foi publicado pela primeira vez no primeiro volume de Fullmetal Alchemist, em julho de 2001, usando uma “calcinha de combate” (em uma tradução livre) – uma escolha de vestuário que ela diz até hoje se arrepender de ter feito.

Essa descrição toda só vem provar o quanto seu trabalho é incrível e se sustenta por si só, sem precisar de divulgação da sua imagem. Isso é importante também para ensinar ao mundo que a qualidade dos trabalhos das mulheres são dissociados de sua aparência física.

Inspirações e Influências:

Sempre que perguntada, Arakawa-san afirma que a raiz da influência de seus traços é o autor Suiho Tagawa, que escreveu Norakuro. Ela também diz que ama a autora Rumiko Takahashi (Inuyasha, Ranma ½) e a obra Kinnikuman (“Músculo Total”), da dupla de autores conhecida como Yudetemago (Yoshinori Nakai e Takashi Shimada), além de ser fã do desenhista e escritor ocidental, Mike Mignola. Quanto à composição das páginas e como desenhar, ela aprendeu tudo quando era aprendiz do Hiroyuki Eto, o autor de Mahoujin Guru Guru.

As obras dela claramente são influenciadas por sua criação na fazenda, seja nas histórias, seja nos traços mais “cheinhos” dos personagens – que segundo ela denotam saúde – e a convivência com mulheres fortes ao longo da vida inspirou as personagens femininas igualmente fortes, que subvertem os estereótipos das mulheres geralmente frágeis e rasas retratadas em shounens.

Cuidar de animais durante sua infância a inspirou a criar o conceito da “troca equivalente” em Fullmetal Alchemist. Nas palavras dela:

“A maneira como você se alimenta se equipara aos esforços que você está fazendo. Quanto mais você ama seus animais, mais eles devolvem a você. Quanto mais você cuidar deles, melhor será a carne deles. Há também eventos imprevisíveis: se o clima estiver terrível, você precisará de mais trabalho para obter melhores resultados. A troca equivalente é baseada na energia que você empregará para realizar as tarefas que foram atribuídas a você.”

Não à toa, o mote da família Arakawa é: “aqueles que não trabalham, não merecem se alimentar”.

Sua primeira obra de não-ficção, Silver Spoon, deixa bem claro como a criação dela influencia diretamente suas obras, pois o mangá é praticamente um relato do seu dia-a-dia na fazenda. E, numa troca equivalente, suas obras influenciam a realidade: Silver Spoon de fato fez com que a procura por matrículas em colégios de agricultura em Hokkaido aumentasse.

Curiosidades:

  • Hiromi é gente como a gente, uma nerd que vive lendo mangás (seus favoritos são Hunter X Hunter e DragonBall), curte Star Wars, Indiana Jones e filmes B. Tem medo de ursos e seu prato predileto é ramen.
Uma vaquinha bêbada desabafa sua indignação com Star Wars. (Foto: Reprodução/ SquareEnix)
  • Outra curiosidade interessante que é prova de sua força e dedicação ao trabalho é que em 2007, quando deu a luz ao seu primeiro filho, ela não parou de trabalhar por um dia sequer. Mesmo durante o período mais conturbado da sua vida, ela ainda assim produziu mais de 50 páginas por mês, além de atender a outras demandas de mangás, animes e videogames, tudo ao mesmo tempo.
  • Ela gostaria de um dia percorrer a “Rota da Seda”, que vai da China a Roma, fazendo um diário de viagem em forma de mangá, porém esse projeto só acontecerá quando alguns países da rota deixarem de ser perigosos de se atravessar, como a região do Afeganistão.
O roteiro da Rota da Seda. Desconfiamos que esse espetacular projeto não acontecerá tão cedo… (Foto: Reprodução/ Google Maps)
  • Hiromi afirma que sua conexão com vacas, além de sua data de nascimento e criação perto delas, inclui sua aparência, pois acha que se parece um pouco com uma vaca de desenho animado. Ela também afirma que se sentiu ainda mais conectada com vacas quando teve filhos, pois passou a produzir leite. Além disso, ela fala que ama esses animais, desde cuidar deles até comê-los.
A vaquinha comendo um bifão… Será que dá para classificar como sendo canibalismo?? o.o (Foto: Reprodução/ SquareEnix)
  • Em se tratando de FMA, ela diz se identificar com o personagem Alphonse Elric, porque ele é bem comportadinho, assim como ela. Ela também afirma que sacrificaria seu braço direito – o que ela usa para desenhar – para ser uma alquimista, pois então ela conseguiria criar seus mangás de uma vez só.
Sem poderes ela já é incrível! Imagina sendo alquimista? (Foto: Reprodução/ Bones)

Conclusão:

Seja por sua força, dedicação, seu humor, seus traços, sua criatividade, a trajetória de vida, até mesmo por sua discrição e tantos outros motivos, é uma grande honra estrear o “Arquitetas da Animação” aqui no Otaminas falando sobre a ilustre Hiromi Arakawa.

Por último, deixamos aqui um recado dela que nós assinamos embaixo e procuramos exercer sempre:

“Mangá é uma forma cultural muito divertida, feita de muitos gêneros totalmente diferentes. Não se restrinja a um único estilo de mangá. Eu ficaria muito feliz em ser o seu trampolim [para mergulhar no mundo dos mangás], mas tente ler o máximo que puder para se expandir!”

Que Arakawa-sensei continue sendo essa fonte inesgotável e apaixonante de inspiração, e que todas as mulheres do mundo encontrem seu espaço para brilhar e sejam reconhecidas por seus trabalhos!