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Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast  “Estupro como recurso narrativo”

A violência sempre foi um recurso utilizado em narrativas desde os primórdios para trazer ao público uma deixa emotiva, despertando por exemplo choque, empolgação ou terror em obras de entretenimento como novelas, filmes, séries e inclusive: animes e mangás.

Inclusive o livro “Images of Rape: The “Heroic” Tradition and its Alternatives” (em tradução livre: “Imagens do estupro: a tradição ‘heróica’ e suas alternativas) da historiadora de arte Diane Wolfthal, aborda cronologicamente o estupro utilizado constantemente em pinturas medievais e renascentistas como uma representação heróica para demonstrar o triunfo da virilidade contra símbolos de castidade e pureza. (Leia mais sobre nesse post incrível do Minas Nerds)

A glamourização do estupro na arte também não é novidade. (Fonte: Montagem Própria)

Nessas pinturas e esculturas, o assédio e a coerção são atenuados pela ideia de sedução, onde as vítimas muitas vezes chegam a esboçar expressões de prazer enquanto são assediadas, um recurso utilizado muitas vezes em animes e mangás, principalmente em hentais com as chamadas expressões “ahegao” cuja tradução direta significa “a cara do prazer indesejado”mostrando como essas representações artísticas  influenciaram e influenciam até hoje (seja no oriente ou ocidente) materiais gráficos como filmes, editoriais de moda, e principalmente a publicidade.

Dessensibilização à violência no entretenimento:

Diversas pesquisas relatam que ao termos contato repetidamente com cenas violentas, nossa sensibilidade se altera e deixamos de nos impactar com a mesma intensidade. Dessa forma, as cenas violentas se tornaram cada vez mais frequentes, intensas e terríveis, na expectativa de poder impactar o espectador.

Ao compararmos as cenas de violência entre personagens masculinos e femininos pode-se notar uma clara diferença nas abordagens escolhidas pelos diretores, sendo estas baseadas em estereótipos de gênero ou em crenças relacionadas à violência contra a mulher.

Quando personagens masculinos sofrem violência em determinada história, geralmente esse acontecimento não muda seus ideais, objetivos ou competências – reafirmando na verdade sua masculinidade e força, mostrando que o personagem aguentou a violência como “um homem de verdade”, o que reforça um estereótipo de gênero que desumaniza emocionalmente o mesmo (assunto para outro texto futuro).

Já quando uma personagem feminina sofre uma violência, quase sempre há um cunho sexual por trás, resumindo-a pelos seus corpos e definindo sua complexidade, personalidade e motivações pela violência que sofreu. A violência sexual marca a história da personagem para sempre, sendo impossível dissociá-la do ato e resumindo sua existência ao acontecimento.

Essas crenças se resumem a uma ideia de construção de personagens femininas com base na mudança gerada após um estupro. Muitas vezes o ato é utilizado para um um arco de redenção, motivo de vingança, punição, vitimização ou para justificar o fato de serem personagens severas, destemidas ou fortes.

O problema de uma falsa acusação de estupro:

Usar uma falsa acusação de estupro como elemento que move uma história não é novidade. O  velho testamento contém a história de Potifar e sua esposa, onde Potifar compra um escravo para sua esposa (Joseph) e ela fica tentando seduzí-lo. Frustrada por não conseguir o que queria, acusa-o falsamente de estuprá-la ao marido que o manda para a prisão.

Temos também o mito grego de Phedra, que era casada com o pai de Hipólito e se apaixonou pelo enteado. Após ser rejeitada, também o acusou de estupro para o pai que amaldiçoou o filho e o matou.

Em The Rising of the Shield Hero, a mulher cumpre o papel clássico da megera mentirosa e manipuladora para a vitimização do protagonista e justificação de seu comportamento tóxico com outras mulheres. ( Fonte: Crunchyroll)

Esse tipo de escolha para conduzir histórias acontecem constantemente até hoje, inclusive em animes como “The Rising of the Shield Hero” que problematicamente baseia todo o ponto de virada do protagonista, o colocando como vítima de uma falsa acusação, demonizando mulheres durante boa parte da série por conta disso.

Apesar dos autores tem a liberdade de se embasar em uma falsa acusação de estupro para criar uma narrativa, temos que entender que o grande problema nessa utilização é que isso vai totalmente contra situações de estupro recorrentes no mundo real.

A cada segundo uma mulher é vítima de abuso no mundo. No Brasil, 164 casos de estupro são registrados POR DIA; vejam bem, abusos REGISTRADOS.( Fonte: G1)

 Isso porque nessa pesquisa não são contabilizadas os casos de estupros contra mulheres que são abafados. É baseado nesses números que temos que entender que esse enredos como esse são um total desserviço para o desenvolvimento moral e empático da sociedade enquanto mulheres no mundo correm atrás de justiça promovendo campanhas como #METOO, se organizando em coletivos e promovendo palestras para que mais mulheres possam se proteger e conhecer seus direitos.

Abordar estupro é algo muito sério e real para ser  tratado como algo “banal” em uma narrativa. Deveria ser utilizado como ferramenta de conscientização e informação para evitar que isso acontecesse na vida real, ao invés de estimular instintos agressores ou desacreditar mulheres, colocando-as mais uma vez como as traiçoeiras das histórias. Isso não significa que falsas acusações não podem ocorrer, mas a questão é:

Quantas mulheres já são desmentidas, desacreditadas ou diminuídas no meio de tantas acusações reais? A cultura do estupro é real e palpável.

A Cultura do Estupro:

Cultura do estupro, segundo a ONU Mulheres, é “o termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. Ou seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio da culpabilização da vítima, isso significa que existe uma cultura do estupro”.

Somos criados e vivemos em uma sociedade construída sobre o pilar da cultura do estupro, onde todos são socialmente construídos (ainda que subconscientemente) para enxergar a violência como uma forma de controle social que é aceitável.

Na cultura do estupro, a mulher é vista como mentirosa, não confiável e traiçoeira, inclusive fazendo uso da sua sexualidade para enganar, seduzir e culpar homens inocentes. A sexualidade feminina saudável não tem espaço, sendo vista “apenas para servir os homens ou oprimi-los”.

Abordagens que são preocupantes:

Analisando as abordagens que envolvem estupro em narrativas, há em muitos países (Japão principalmente) um fetiche envolvendo o abuso de mulheres, sendo muito comum em mangás e animes ecchi/hentais.

Muitas pessoas romantizam os assédios do Meliodas com a Elizabeth só porque eles se gostam no anime. (Fonte: Netflix)

Esse fetiche estimula também uma abordagem negativa em cenas que envolvem abuso sexual, como por exemplo no anime Goblin Slayer, que no primeiro episódio mostra uma personagem que sofre violência sexual sendo colocada em posições extremamente sexualizadas tirando completamente o foco do lado negativo do ato para explorar visualmente seu corpo.

Além disso, há também a romantização do abuso em muitas obras reforçando a ideia de que uma mulher que sofre um estupro dentro de um relacionamento deveria achar isso comum. Em muitos casos a vítima após sofrer a violência se relaciona com o agressor ou o ato é romantizado por se tratar de um casal que já está envolvido emocionalmente como no caso do Meliodas e a Elizabeth em Nanatsu no Taizai.

Teste de Jada:

Muitas cenas de estupro são sexualizadas como esta cena do primeiro episódio de Goblin Slayer. ( Fonte: Crunchyroll)

Em uma análise levantada pela Vulture, a autora Jada Yuan adaptou o Teste de Bechdel para analisar a forma que estão retratando os estupros na ficção. Assim como nos casos anteriores, para passar no teste a obra tem que passar por alguns critérios:

1.O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima?

2. A cena de estupro possui o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa?

3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois?

4. O corpo nu da vítima é mostrado durante a cena como objetivo de sexualização?

Esse teste é um bom indicador para que possamos identificar quando a utilização do estupro em uma obra de ficção é feita de forma irresponsável, ferindo a feminilidade de forma gratuita.

Conclusão:

Muitos roteiristas escrevem histórias contendo estupro que servem de exemplos de superação para inspirar inclusive sobreviventes de agressão. A grande questão é que personagens são um reflexo da realidade, existindo uma quantidade infinita de motivações que podem produzir mulheres interessantes, complexas e inspiradoras.

Pedir o fim desse tipo de narrativa seria ingenuidade. O importante é que hajam mais diálogos sobre agressão sexual e que hajam mais personagens femininas com maior variedade de histórias que não resuma essas mulheres à violência que sofreram. Hoje mais do que nunca torna-se necessária a criação de personagens que sejam exemplos de força e que promovam a diversidade.

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NÃO TEM DESCULPA. DENUNCIE 180.