Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “Especial – Heroínas Ghibli”

Em um passado não muito distante, quase metade da população mundial era proibida de estudar, votar, trabalhar ou até mesmo se deslocar livremente. Parece absurdo, mas era assim que mulheres eram tratadas – e em alguns lugares do mundo ainda o são.

Para se ter uma ideia, menos de 70 anos atrás a mulher brasileira que quisesse viajar sozinha precisava ter por escrito em seu passaporte uma autorização do marido. No Kuwait, somente em 2009 as mulheres adquiriram o direito de obter um passaporte sem precisar que seu cônjuge autorizasse. Ainda hoje, existem culturas em que a mulher não é livre nem para escolher com quem se relacionar.

Mesmo sendo diminuídas, objetificadas, tendo seus direitos tolhidos e atitudes repreendidas por séculos – ou talvez justamente por isso – as mulheres são força motriz para grandes mudanças mundiais, sempre se organizando para reivindicar melhores condições não só para elas, mas para todos que precisam.

No começo do século XX – em meio a marchas, passeatas, manifestações e protestos feitos pelas mulheres na Europa e Estados Unidos – surgiu a ideia de criar um Dia da Mulher para celebrar as lutas pelos direitos das trabalhadoras. Entretanto, não foi fixada uma data e em cada lugar as mulheres faziam a celebração à sua maneira, mas sempre focando lutar por em direitos básicos e condições mais humanas.

Somente em 1975, designado o “Ano Internacional da Mulher” pela Organização das Nações Unidas, convencionou-se que 08 de Março seria o “Dia Internacional da Mulher”. Para que anualmente sejam relembradas as inúmeras conquistas que as mulheres alcançaram com suas lutas, bem como amplificar suas vozes, que ainda estão gritando por igualdade.

Todo esse potencial feminino certamente não passou despercebido para o Studio Ghibli, que tem em 15, das suas 21 animações, mulheres como protagonistas. Faremos, então, uma breve análise de algumas das nossas heroínas favoritas (e algumas antagonistas também!).

A lista está em ordem alfabética e marcamos com * as personagens sobre as quais conversamos no nosso podcast.

Anna Sasaki

Em “Memórias de Marnie” (2014), a introvertida Anna é uma personagem que, com apenas 12 anos, já tem ansiedade social, se compara muito a outras pessoas e isso faz com que ela não consiga fazer amizades. Por conta de sua asma, ela se muda para uma região com o ar mais limpo e lá ela faz sua primeira amiga, Marnie, uma garota estrangeira. A relação das duas é um resgate de identidade e confiança, essencial pro crescimento e aprendizado de Anna. Sua condição psicológica reflete aspectos típicos sofridos no nosso cotidiano atual e a relação de ambas as personagens, além de levar Anna a resgatar suas origens e aliviar o peso de sua existência, nos lembra que não estamos sozinhas.

Arriety Clock*

A pequenina Arriety estrela “O Mundo dos Pequeninos” (2010) e seu tamanho é inversamente proporcional à sua coragem e carisma. Num mundo secreto, existem pessoas bem pequenininhas, que moram debaixo das nossas casas. Os humanos grandes não podem descobrir, ou sua curiosidade pode colocar a vida dos pequeninos em risco, mas uma amizade inesperada entre a pequenina e um menino se prova ser um laço muito profundo. A coragem, a determinação e a bondade de Arriety são inspiradoras. Explorar o mundo não é algo fácil, mas ter coragem pra tal é com certeza uma virtude admirável que essa pequenina nos ensina.

Chihiro Ogino*

Em “A Viagem de Chihiro” (2001), Chihiro é uma menina de 10 anos mimada e frustrada em abandonar a antiga vida. A caminho da casa nova, se depara com uma situação inusitada e uma responsabilidade que vai muito além do que ela parecia ser capaz de lidar. Para salvar os pais, com muita coragem e bondade, a Chihiro faz amigos, se resolve com inimigos e amadurece lidando com seus medos, que só seriam superados com uma coragem que vai além da sua idade ou tamanho. É uma personagem que prova que crianças não devem ser subestimadas, que são capazes de grandes feitos e devem sempre ser levadas a sério. Representatividade para todas as idades!

Kiki*

“O Serviço de Entregas da Kiki” (1989) conta a história de Kiki, uma bruxinha que, ao fazer 13 anos, segundo a tradição da família precisa sair pra conhecer o mundo sozinha. Essa é a idade do amadurecimento pra qualquer criança e a Kiki representa muito bem essa fase por meio das suas curiosidades e dificuldades nesse momento de descoberta. A evolução da relação da Kiki com seu gatinho Jiji representa uma nova e amadurecida visão de mundo, que se expande nesse momento tão delicado de entrada na pré-adolescência.

Kushana

Uma sobrevivente de caráter nobre e feroz em batalha, Kushana tem 25 anos e é a antagonista em “Nausicaä do Vale do Vento” (1984). Apesar de admirar o pacifismo de Nausicaä, Kushana segue um caminho belicoso para atingir seus objetivos e ideais, sendo brutal e dura com seus inimigos. Por trás da fachada forte e até cruel, porém, está uma mulher de coração gentil e carinhoso, que age com cautela por medo, pois ela sabe que seus irmãos estão dispostos a matá-la para assumir o trono.

Lady Eboshi*

Representando a raça humana e a devastação que ela causa na natureza, a Lady Eboshi é a antagonista de San em “Princesa Mononoke” (1997). Entretanto, ela não é uma personagem má, apenas desempenha seu papel da melhor forma possível, dentro daquilo que acredita. Ainda que ela seja uma líder ambiciosa, dura e até arrogante, é amada pelos habitantes da cidade que governa, pois percebe a injustiça com os oprimidos e dá oportunidades para as minorias. Seu arco de redenção termina quando promete reconstruir a cidade de uma forma ainda melhor, porém respeitando a floresta.

Mei Kusakabe*

A Mei, junto com sua irmã Satsuke, é uma das protagonistas de “Meu Vizinho Totoro” (1988). Independente, teimosa, determinada e extremamente curiosa, vive explorando os arredores da nova casa, o que a leva a conhecer o Guardião da Floresta: Totoro. Quando recebe a notícia de que sua mãe, que está internada com uma doença crônica, piorou e por isso a vai ter que passar mais uns dias no hospital, a Mei – no alto dos seus quatro anos de idade – decide ir sozinha visitá-la. Essa decisão rende uma aventura que acaba por aproximar ainda mais as irmãs e unir a família.

Moro*

Mãe adotiva de San em “Princesa Mononoke” (1997), Moro é uma loba de mais de 300 anos de idade que se tornou uma entidade mágica da natureza, possuindo poder e inteligência divinos. Ela é líder feroz de uma matilha de lobos e protege a floresta e a natureza a todo custo, mas como muitas mulheres, faz dupla jornada e é uma mãe muito carinhosa. Mesmo que a San seja humana – a mesma raça que destrói a natureza – ela tem um amor incondicional pela filha adotiva e esse carinho é incrível e admirável.

Nausicaä*

A animação de 1984 retrata um futuro pós-apocalíptico na Terra em que Nausicaä, a princesa do Vale do Vento, aos 17 anos assume as responsabilidades de seu pai doente e conquista espaço no reino. Apaixonada pelas relações humanas e pela vida, ela estuda ecologia para entender a fauna e a flora desse universo que foi destruído por guerras e desrespeito com a natureza. Nausicaä é determinada e comprometida, além de ter uma personalidade muito carismática que faz com que todos tenham carinho por ela. Ela é capaz de se comunicar com animais devido à sua compaixão e faz o que pode por todos. A pioneira das heroínas Ghibli é uma personagem forte e que não deixa de ser gentil e carinhosa.

San (Princesa Mononoke)*

San é uma das personagens principais de “Princesa Mononoke” (1997). Uma humana criada por uma matilha de lobos, ela cresce na realidade violenta da natureza, que sempre é atacada pelas mãos humanas. Com apenas 15 anos se torna uma aliada em defesa do habitat dos seus familiares, confrontando as ameaças que surgem quando os humanos desmatam a floresta em que ela vive. A San é destemida, feroz, ágil e é uma ponte essencial para que as partes se entendam e entrem em harmonia, uma vez que, mesmo tendo sido criada por lobos, continua sendo humana. Sua luta se assemelha à luta que muitos povos indígenas vivem até hoje, inclusive no Brasil, por respeito à natureza e à vida além das cidades e da produção.

Satsuki Kusakabe*

Satsuki é a irmã mais velha de Mei, de “Meu Vizinho Totoro” (1986). Ela tenta ser uma boa irmã mais velha e um exemplo pra mais nova, porém a doença da mãe pesa muito para o emocional de ambas e, mesmo querendo ser um modelo, a menina de 11 anos acaba demonstrando seus medos. Seu carinho, responsabilidade, gentileza e dedicação fazem dela uma irmã incrível e de fato um modelo a ser seguido.

Sheeta

“Um Rei sem compaixão não merece seu reino. Não importa quantas armas você tenha, ou o quão incrível seja a tecnologia, o mundo não existe sem amor.” – Essa frase dita por Sheeta para Muska em “Castelo no Céu” (1986) representa o quão nobres são as intenções que movem as ações da personagem e a representam por si só. A princesa de Laputa é a única heroína Ghibli que chega a matar um inimigo, tamanha sua responsabilidade como princesa e seu posicionamento firme e decidido, mesmo tendo apenas 13 anos.

Sophie Hatter*

Em “O Castelo Animado” (2004), Sophie Hatter é uma garota de 18 anos extremamente talentosa, capaz, forte, direta e dedicada, mas por se comparar demais às irmãs e se restringir aos limites familiares, fica apagada e sem exercer todo esse potencial. Quando ela é amaldiçoada e torna-se uma velhinha de 90 anos, Sophie se liberta de todas essas amarras e passa a brilhar como nunca!  Ela é uma personagem que representa todas as inseguranças que uma mulher pode ter e, ao mesmo tempo, a força que existe em todas nós, mas que às vezes só aprendemos com a maturidade e experiências na vida. Ela ficar velhinha simboliza o valor da maturidade, que é mantida quando a maldição é removida, representada em seus cabelos brancos.

Yubaba

Antagonista principal em “A Viagem de Chiriro” (2001), Yubaba é uma bruxa poderosíssima e extremamente cruel, mesquinha e gananciosa. Ela é a responsável pela casa de banho na qual Chihiro precisa trabalhar para salvar seus pais. Yubaba se mostra muito rígida com todos, mas é uma mãe super protetora e preocupada, surpreendendo a todos com suas fraquezas.

Zeniba

Tão ou mais poderosa que Yubaba, é sua irmã gêmea. Apesar de tratar Chihiro com mais gentileza e ser mais piedosa, o poder de Zeniba e sua postura são assustadores. Ela faz questão de deixar claro que poderia acabar com tudo num estalar de dedos, mas controlar seu poder também é sinal de força, então sua segurança é ainda mais assustadora. Zeniba e Yubaba representam tanto o medo quanto a segurança para uma criança, a visão da bruxa e a visão da avó, que são duas figuras importantes pro crescimento e amadurecimento: o desafio e o apoio.

E essas são apenas as personagens principais de algumas animações. De acordo com um wiki feito por fãs, entre protagonistas, coadjuvantes e outros papéis secundários, são 155 personagens femininas no total! É muita mulher incrível para se inspirar!

Levando em conta todo o histórico de apagamento e diminuição das mulheres, bem como suas lutas por igualdade, é refrescante e muito inspirador nos ver representadas como seres livres, independentes, fortes e até heroicos.

Ao mesmo tempo em que são muito importantes para a representatividade feminina, as heroínas Ghibli agradam públicos de todos os gêneros e faixas etárias, porque no fim das contas trata-se apenas de pessoas enfrentando conflitos e evoluindo. Afinal – como o feminismo vem dizendo há muitos anos – somos (ou deveríamos ser) todos iguais.

Não achamos o(a) autor(a) da arte acima, caso seja você ou conheça mande e-mail para contato@otaminas.com.br

Esperamos que num futuro próximo não precisemos mais de um Dia Internacional da Mulher, mas enquanto ainda existir a necessidade, é muito importante ter aliados como o Studio Ghibli, que ajuda a mostrar de maneira simples e direta que todos somos igualmente capazes (ainda que não exerça isso na vida real, né Studio Ghibli? Vamos melhorar isso aí!).

 

Agora queremos saber de você: conte-nos quais são as suas personagens favoritas!