Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “Akatsuki no Yona e a representatividade”

Akatsuki no Yona conta a história da Princesa Yona, herdeira do Reino de Kouka que, após viver uma vida repleta de privilégios, tem que abandonar tudo em fuga por um acontecimento trágico e político que muda sua vida para sempre. Acompanhada de seu guarda-costas, Hak, ela precisa descobrir sua verdadeira força e encontrar aliados para poder sobreviver em um mundo completamente diferente da vida fantasiosa que vivia no palácio.

Com 24 episódios e 3 OVAS produzidos pelo estúdio Pierrot, o mangá da autora Kunasagi Mizuho ainda está sendo publicado na revista Hana to Yume, chegando perto de seu arco final. Infelizmente não há previsão de uma segunda temporada, apesar do otimismo dos fãs que inclusive criaram um abaixo-assinado pedindo ao estúdio que retome o projeto. 

Por que este anime é tão bom?

Primeiramente, Akatsuki no Yona é uma obra com muito embasamento histórico e político inspirados na Coréia, especificamente no “Período dos Três Reinos”. O Reino de Kouka é baseado no Reino de Goguryeo, e seus vizinhos, Sei e Xing, são inspirados em Baekje e Silla, respectivamente. Dá para notar isso pelo mapa do mangá, muito parecido com a divisão geográfica do país nesse período, além das vestes e da maioria dos nomes dos personagens serem de origem coreana, como Shin-ah, Yona e Jae-ha, por exemplo.

Não é muito comum vermos obras japonesas que retratem essa cultura ou esse período pela divergência que Japão e Coreia possuem em decorrência de confrontos do passado, então é uma história que chama a atenção por essa riqueza de detalhes trazidos pela pesquisa da autora.

Uma história que poderia ser baseada em fatos reais:

Como se não bastassem os problemas do Reino, ainda tem problemas entre os líderes das províncias. Quase um Game of Thrones.

O anime trata o tempo todo sobre a questão social e política que os reinos estão passando, mostrando que a gestão de um país não depende da índole do governante. Yona achava que seu bondoso pai era um líder justo e ao se deparar com o estado lastimável em que seu povo vivia, mergulhado em fome e miséria, entra em choque. Tudo isso seria menos difícil se não fossem também os problemas com as alianças políticas entre os líderes dos outros reinos, que rompem laços após o golpe de estado ser instituído. Pois é, princesa, governar definitivamente não é um conto de fadas.

Abordando temas como assassinato, traição, tráfico de mulheres e o vício em drogas (esse último acontece somente no mangá), é uma obra recheada de temas complexos e maduros, que são desenvolvidos com muita responsabilidade e seriedade.

As histórias de vida dos dragões – aliados que se juntam aos poucos ao grupo – também são repletas de sofrimento e solidão. Isolados de suas tribos e rejeitados por serem considerados monstros, o grupo de Yona é composto por membros que foram marginalizados por serem considerados diferentes. Sem ter proximidade com os familiares, eles recobram o significado da palavra “família” ao se protegerem e se unirem como uma.

Como desenvolver uma personagem feminina da forma correta:

O antes e depois da princesa: um exemplo de desenvolvimento de personagem.

Uma das melhores construções de protagonista se dá justamente com o choque de realidade que a mimada princesa tem ao reparar que vivia luxuosamente enquanto muitos tentavam sobreviver. Yona ganha força para continuar lutando por sua vida, não só pela sede de vingança contra seu primo e primeiro amor, Soo-won, que assassinou seu pai, mas também pela vontade de fazer pelo povo tudo que seu pai não conseguiu. Muitas vezes, inclusive, Yona coloca seu plano de vingança de lado, pois de que adiantaria destronar seu primo e inimigo se não houver povo para governar? Suas prioridades claramente mudam com o passar do tempo.

A princesa, antes fraca e vulnerável, começa a aprender com seu guarda-costas e amigo de infância, Hak, a lutar e a usar o arco e flecha. Cada vez mais destemida e focada, percebe que para mudar a situação terá que tomar decisões extremas, inclusive matando o inimigo caso seja necessário. E o primeiro passo para essa transformação se dá quando decide cortar seu cabelo – o maior símbolo de sua vaidade, beleza e fragilidade – para se libertar e salvar Hak, que fora jogado de um penhasco.

Yona prova que é possível construir uma personagem que seja feminina, destemida e gentil. Ambos os lados – sensível e valente – não se sobrepõem depois que ela descobre sua verdadeira natureza cheia de força e superação, sendo ela o combustível do grupo de dragões que a acompanha, não só por ser a reencarnação do Rei Hiryuu, mas por ter conquistado a confiança de cada membro com sua garra e determinação.

Gi-Gan, Lili e a Princesa Kouren de Xing são algumas das personagens femininas fortes do anime / mangá.

Além disso, a obra é repleta de de personagens femininas inspiradoras, como a chefe dos piratas, Gi-Gan, a esposa do líder da tribo da terra, Yun-Ho, e as queridas personagens do mangá: Lili, a princesa do reino da água, e suas duas guarda-costas, Tetora e Ayura, além das princesas do reino de Xing.

O fanservice que toda mulher merece:

Fan service é decente quando não é ofensivo nem abusivo. Essa cena é de um OVA em que os personagens vão tomar banho em uma terma. A única cena em que ficam sem blusa. Uma bela visão, hein?

Não podemos deixar de mencionar os incríveis personagens masculinos presentes neste anime. Finalmente ouviram as preces que nós, mulheres, fizemos: um harém-inverso em que os homens respeitam o espaço da protagonista, sem cenas desnecessárias de assédio velado, ou uma protagonista sonsa e sem personalidade. Sem clichês, Akatsuki no Yona possui um trunfo difícil de encontrar no mundo dos animes: um romance que se constrói com paciência, gentileza e sem forçação de barra.

Cada dragão tem suas características físicas e de personalidade construídas com cuidado. São pessoas diferentes, com histórias de vida diferentes e idades diferentes, mas que se unem por um objetivo em comum: seguir e proteger a princesa, como reza a lenda. 

O próprio “vilão”, Soo-Won, é retratado de uma forma tão envolvente pela sua história de amizade na infância e pela sua personalidade calma, que é difícil odiar o sujeito. Fora que, além da beleza, o novo Rei tem uma qualidade que ninguém esperaria: sabe governar muito melhor do que seu antecessor.

Revendo papéis de gênero:

Yoon se vestiu de mulher para salvar Yona, cuidou das feridas e alimentação de todos. É um homão da p*** também!

Um personagem que muita gente deixa de lado é Yoon, um dos companheiros de bando de Yona, mas que é extremamente importante quando vamos pensar nos papéis de gênero. Yoon é delicado, frequentemente comparado com uma menina por sua beleza e suas habilidades estão no campo do domínio de ervas medicinais, economia doméstica e culinária. Todas essas habilidades frequentemente são atribuídas a um papel de mãe (apelido carinhoso que os dragões se referem a Yoon), mas que mostram que esses papéis não devem ser exclusivos de um gênero específico. Akatsuki no Yona tem tanto mulheres guarda-costas como um rapaz que cuida da alimentação e bem-estar da família. E ninguém é julgado ou diminuído por conta disso.

Conclusão:

E você? Se sentiu ou sente inspirado por Akatsuki no Yona? Que tal começarmos a levar esses valores para a vida real? Figuras como as que abordamos aqui são imprescindíveis para o empoderamento feminino no meio. E vamos promover a obra aqui no Brasil, para que o mangá seja não só lançado, mas que o estúdio cogite a tão sonhada (e merecida!) segunda temporada em breve.