Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “Valentine’s Day: Amor ou Obrigação?”

Afinal, como funciona o Valentine’s Day Japonês?

O Valentine’s Day no Japão, começou como uma festa católica em homenagem a São Valentim, sendo elegido como O Dia dos Namorados séculos depois pela indústria, que viu uma oportunidade e tanto de mercado.

O comércio de chocolates no dia 14 de fevereiro no Japão começou em 1958, 13 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e seis anos após o fim da ocupação estadunidense no país, sendo a sua incorporação na cultura japonesa um elemento que comprova a força da influência dos EUA no Japão após e durante esse período.

As vendas foram iniciadas em um evento da chocolateria Mary Chocolate’s que arrecadou apenas 150 ienes por dia, durante três dias de vendas. Aos poucos a prática foi ganhando força, virando com o passar dos anos uma tradição.

Gratidão ou Obrigação?

Os japoneses têm uma cultura bem forte em relação a gratidão e presentes. Lá é comum você viajar e trazer algum tipo de “lembrancinha” (Omiyage) para todos os colegas de trabalho e chefes. Também é normal presentear pessoas que prestam algum tipo de favor, quando te fazem uma visita e até mesmo pela ajuda em momentos difíceis. Essa é forma deles demonstrarem gratidão, e no Valentine’s Day a tradição é das mulheres demonstrarem essa gratidão ou afeto pelos colegas de trabalho, amigos e namorados/maridos.

Tipos de chocolate:

Os chocolates do Valentine’ Day são divididos em três categorias de presentes que são dados por mulheres aos homens no dia 14 de fevereiro: o Giri-choco, o Tomo-choco e o Honmei-choco.

  • O Giri-choco é conhecido como o “chocolate de obrigação”, que pode ser comprado e entregue a chefes e colegas de trabalho. As mulheres que não entregam esse chocolate são vistas de forma negativa e até mesmo como ingratas pela sociedade.
  • O Tomo-choco é uma variação moderna do Giri-choco. Tomo é um termo que vem de “Tomodachi” (amigo), que indica o chocolate dado aos amigos e amigas, como um aviso de que o produto não é fruto de uma obrigação social, e sim de afeto verdadeiro.
  • Honmei-choco (Homemade Choco) é o chocolate que deve ser dado aos seus namorados, maridos, amigos e familiares mais próximos. Esse mantém a tradição de que não pode ser comprado, e sim preparado por elas de forma caseira, por conta da crença popular de que se o chocolate é comprado já pronto, seu amor não seria verdadeiro.
Mulheres que querem demonstrar amor verdadeiro são obrigadas a fazerem o chocolate de forma caseira. (Kaguya Sama Love is War / Crunchyroll).

Existem pessoas que afirmam que algumas pessoas podem colocar cabelo, saliva, sangue, e até pelos pubianos quando fazem o chocolate para atrair a pessoa desejada. E até existem casos de homens solitários que compram chocolates para simular que suas waifus 2D estão lhes presenteando.

O feriado acabou se tornando um grande negócio para as confeitarias japonesas, que atualmente reportam ganhar mais da metade de seus ganhos anuais de cinco bilhões de dólares nas vendas referentes ao Valentine’s Day.

Quando vai se aproximando da data, o que mais se encontra nas lojas são os variados tipos e formatos de chocolate, além de kits para preparo caseiro do mesmo.

White Day: “O dia da vingança”:

No final dos anos 70 surgiu o White Day, quando um grupo de CEOs das companhias de confecção se juntaram para debaterem sobre como conseguir ampliar o mercado. Eles então chegaram na definição do dia 14 de março (exatamente um mês depois do Valentine’s Day) para que nesse dia os homens devolvessem os presentes recebidos pelas mulheres com mais chocolate.

Porém, diferente das mulheres, a obrigação da participação masculina não é tão grande. Um homem não fica mal visto caso não retribua os presentes recebidos e, quando o faz, não existe a pressão do presente ter que ser caseiro (apesar das grandes expectativas das mulheres à sua volta para recebê-los).

O Danoso “Chocolate da Obrigação”:

Recentemente foram abertas diversas discussões sobre o Giri-choco e muitos estudiosos analisaram e o interpretam de várias formas.

A socióloga Yuko Ogasawa argumentou em uma entrevista para o G1 que o giri-choco poderia ser enxergado como uma forma das mulheres exercerem “poder” sobre os homens. A ideia seria que aqueles dignos de admiração receberiam chocolate. Já os julgados “não merecedores” não recebiam nada, alimentando dessa forma o ego masculino e criando uma certa competitividade entre homens.

Outros estudiosos acham que a data deveria ser um momento doce, em que se demonstra amor e que o chocolate de obrigação deveria acabar. Mulheres alegam um incômodo muito grande ao serem pressionadas para atingir a expectativa de presentear colegas de trabalho e chefes, sendo uma experiência humilhante e de desperdício de renda. A Godiva inclusive (empresa de chocolate belga) fez uma publicação, de página inteira, sobre isso em um jornal pedindo o fim do Giri-choco.

“O Dia dos Namorados deve ser um dia em que você demonstra para alguém seus sentimentos verdadeiros. Não é um dia em que você deve fazer algo extra, para suavizar as relações de trabalho”, dizia a publicidade. (Fonte: Pouch)

Já o resto dos estudiosos acreditam que é apenas um tradição e que não enxergam problemas em ser mantê-la. Porém cabe a nós fazermos uma reflexão a respeito do assunto também.

O Valentine’s Day nos Shoujos:

É muito comum haver a celebração do Valentine’s day ou do White day em shoujos. (Nisekoi / Crunchyroll).

90% dos shoujos sempre tem algumas cenas que romantizam o fato da menina dar chocolate caseiro para um homem e o giri-choco para os colegas. O foco maior é no Valentine’s Day por conta de ser um dever social de uma mulher.

Nessas cenas a protagonista sempre faz o chocolate de forma caseira (mesmo que muitas vezes tudo dê errado e ela queime o presente). Já o rapaz, quando a corresponde, devolve o presente comprando alguma coisa, seja um chocolate ou alguma jóia, mas não há foco nessa troca masculina nas obras e muito menos esse tipo de “dever masculino” é retratado em demografias shounen.

Seria porque homens não são cobrados socialmente em relação a isso como as mulheres? Seria essa uma tradição que visa amaciar o ego masculino muitas vezes fragilizado com medo da rejeição e, por conta disso, o foco da tradição é a iniciativa feminina de presentear em vez de haver um equilíbrio entre as cobranças dessa tradição? Vale a pena a gente se questionar sobre isso.

Conclusão:

Apesar do foco comercial que visa o lucro acima de tudo, a festa tanto do Valentine’s Day quanto do White Day possui um intuito bonito de celebrar o amor, afeto e gratidão.

A questão levantada pelas mulheres é relacionada estritamente ao Giri-choco, uma formalidade dentro dos ambientes de trabalho que muitas vezes é vista pelas mulheres como uma humilhação ou subordinação hierárquica em relação aos chefes e colegas de trabalho.

Muitas comparam o ato de serem obrigadas socialmente a presentear colegas de trabalho masculinos com o ato de ter que servir bebidas aos chefes e colegas em reuniões de trabalho por serem mulheres. Uma bajulação sexista obrigatória sob uma ameaça silenciosa de exclusão e julgamento social.

Inclusive muitas empresas não estão mais aderindo à tradição e liberando mulheres da obrigação social de segui-la no ambiente de trabalho. Um avanço devagar, mas muito significativo em relação à igualdade de gêneros principalmente no mercado de trabalho.

E você? Já tinha parado para analisar o dia dos namorados japonês?
Sinta-se livre para debater aqui nos comentários!