Aviso: Esse texto é um material de apoio complementar aos nossos podcasts.
Escute o Podcast “O Incrível mundo das Webcomics”

O que são Webcomics?

Webcomics são histórias em quadrinhos cuja publicação é veiculada exclusivamente pela Internet. Apesar de existirem muitos quadrinhos consagrados à moda tradicional que são disponibilizados de forma digital, webcomics hoje em dia são feitas especificamente para a leitura online, em um formato que facilita a leitura em aparelhos celulares principalmente.

O acesso crescente à tecnologia permitiu o avanço de técnicas de desenho digital, deu independência para produção e estudo de muitos artistas e possibilitou o surgimento de um mercado independente que tem um alcance gigantesco.

Mas nem sempre foi assim, as primeiras webcomics foram compartilhadas na internet nos anos 80. No começo a maioria era derivada de comics impressas, mas a partir da década de 1990 mais pessoas começaram a publicar exclusivamente para internet. A partir dos anos 2000, vários criadores conseguiram realmente ganhar dinheiro com esse tipo de produção e ela se tornou mais reconhecida artisticamente. Com o aumento das redes sociais e do compartilhamento frequente, as webcomics perderam um pouco o espaço comercial, mas plataformas de financiamento coletivo colaboraram para manter a prática ativa.

A partir de 2010, com a popularização das webcomics na coréia do sul, o mercado cresceu muito e tem várias possibilidades de financiamento e apoio, apesar da grande concorrência, já que hoje em dia com acesso a tecnologia, é mais fácil produzir esse tipo de conteúdo.

Essa forma independente de publicação, similar aos fanzines muito conhecidos aqui no Brasil e sempre presentes em feiras geeks, nerds e otakus, vem crescendo cada vez mais, tanto como uma plataforma de exposição de artistas, quanto um início de carreira para escritores e desenhistas. Apesar da grande maioria das obras serem trabalhos amadores que não se prendem a excelência nos desenhos nem tem uma frequência de serialização, muitas obras tem se destacado e ganhado o público pelas artes, roteiro e até interação nas redes sociais dos artistas, sendo sucesso por parte do público, da crítica, e decorrente disso, na área comercial.

Edições de Holy Avenger, mangá brasileiro ilustrado por Érica Awano. (Fonte: Trama Editorial / Jambô Editora)

O que entendemos por Webcomics também pode ser chamado de Webtoon, que é o nome usado na Coréia do sul e na China, inspiradas por traços de mangás e manhwas. Nesses países, muitas obras chamaram atenção de grandes empresas e viraram até drama e filmes, como “Cheese in the trap”, de Soonkki, adaptado para série de TV em 16 episódios lá em 2016.

Webtoon no aplicativo da empresa Line e Imagem promocional do Drama. (Fonte:Line)

Representatividade

O mercado de comics impressas dos Estados Unidos sempre foi quase exclusivamente masculino, tendo poucas referências femininas. Hoje em dia temos grandes nomes como Gail Simone representando as mulheres, debatendo sobre nosso espaço no mercado e colaborando para que a representatividade chegue até as crianças também, como sua recente parceria com o eBay, que incentiva o consumo de produtos relacionados a heroínas.

Gail Simone em entrevista para o canal A hora suave na CCXP 2017. (Fonte: CCXP)

No Brasil, nós temos nomes como Adriana Melo, que trabalhou em vários títulos da série Star Wars, a maravilhosa Erica Awano, focada na arte do mangá e responsável pela arte de Holy Avenger, e a própria Laerte Coutinho, que publica críticas em suas artes desde a década de 80.

Charge de Laerte Coutinho. (Fonte: Laerte Coutinho)

Mas o espaço que as mulheres não têm na indústria formal é percebido neste estudo de 2015, organizado por David Harper, que concluiu que a grande maioria das webcomics é produzida por mulheres, transexuais e não-binários, muito mais do que por homens cis.

Por ser uma plataforma livre, que permite o anonimato e a criação do que bem entender sem rótulos e sem censura, o ambiente online das webcomics se tornou um refúgio para representatividade, permitindo que se pudessem criar obras que nunca seriam disseminadas ou vendidas pelo mercado simplesmente por fugirem do padrão.

É possível ver neste gráfico que o espaço que não nos foi permitido na indústria formal está sendo retomado com unhas e dentes em produções independentes, e que o que realmente nos falta é oportunidade.

Gráfico resultado do estudo de David Harper, de 2015, que indica os gêneros que mais atuam em algumas produções culturais. (Fonte: Wikipédia)

Hoje no Brasil, na cena independente, um dos projetos que surgiu recentemente e ganhou destaque foi o Shoujo Bomb.

Poster promocional Shoujo bomb. (Fonte: Shoujo Bomb).

Produzido pelas autoras Renata Rinaldi, Cah Poszar, Lígia Zanella, Mari Petrovana, Janaina Araújo e Juliana Loyola, o projeto visa produzir histórias baseadas em mangás shoujo, mas legitimamente brasileiras. Isso pode ser uma abertura no mercado nacional para produções oficiais, tanto por mulheres, quanto focadas na arte do mangá!

O projeto será lançado no Anime Friends 2019 e vocês podem ajudar pelo https://www.catarse.me/shoujobomb

Liberdade feminina

Agora que vocês sabem o que são, de onde surgiram e quem produz, podemos debater o quanto isso fortalece a nós como mulheres e consumidoras.

A indústria e as construções sociais sempre nos privaram e marginalizaram nossa identidade e sexualidade, criando estereótipos que parecem querer nos moldar diariamente, mas que não representam quem somos, nem nunca representarão, pois são irreais.

O tabu sobre não gostarmos tanto de sexo quanto os homens é quebrado diariamente em diversas produções feitas de mulheres para mulheres. Apesar de curtirmos uma outra abordagem, diferente da produzida para homens, e isso se dá por sentirmos prazer de uma outra maneira, as produções eróticas para mulheres sempre foram não apenas escassas, mas como mal vistas e ainda são marginalizadas e vistas como fruto da modernidade.

A liberdade sexual vem aos poucos sendo conquistada, e ter contato com conteúdo erótico, aprendermos sobre nossos corpos, sabermos que sentir prazer é algo bom e não algo errado é essencial para nos independer em todas as áreas.

Webcomic erótica “Talk to me”, por Eunbyul, distribuida pelo aplicativo Lezhin comics. (Fonte: Lehzin).

E as webcomics têm nos ajudado nesse aspecto, tratando tanto de identidade de gênero quanto de sexualidade com naturalidade, nos entregando algo essencial para auto descoberta: representação.

Diversas culturas, corpos, identidades, sexualidades, desejos, vontades, interesses, é possível encontrar de tudo nas produções de webcomics.

Nosso espaço como consumidoras está diretamente relacionado com nosso espaço como produtoras. Quanto mais a gente produzir, mais poderemos consumir!